carlos-sodréQuem não sabe que Zezéu, como Prisco, foi um político que existiu para que, como um punhado de outros recolhidos da vida pública, mas de passado honrado, se impeça os “generalizadores” de colocar todo e qualquer portador de mandato ou dirigente público na vala comum dos ladrões, useiros em brandir, com o seu cinismo, hipocrisia e  maledicência que “todo político é ladrão”?

 

CARLOS SODRÉ

Cada vez mais a crise moral e ética no seio da sociedade se amplia e, com força crescentemente avassaladora, vai se ampliando e avultando na vida pública do Brasil, rareando cada vez mais os exemplares de homens públicos dignos, entre nós.

A semana que passou  produziu, para os baianos e para o Brasil, a perda de duas figuras significativas da nossa recente história política: Luís Humberto PRISCO VIANA e José Eduardo Vieira (ZEZÉU) RIBEIRO cuja passagem pela vida pública fez-se, em ambos os casos, com máxima honradez,  sob o inquestionável signo da coerência  e com acendrado espírito público.

Duas personalidades distintas, idades distintas, profissões distintas,estilos distintos, posições ideológicas distintas, militâncias político-partidárias distintas, visões certamente distintas, do mundo e da vida, tinham, na essência, porém, com acentuada preponderância, a ombreá-los, além  da integridade assentada em lastro moral irretocável, austeridade marcante em face dos compromissos éticos que lhes guiava as trajetórias, qualquer que seja o ângulo de visada, de homens públicos como em plenitude souberam se exercer. Nesses tempos temerários e surrealistas , onde a desonestidade e o despudor vão grassando sem-cerimoniosamente, traduzidos pela depravação dos costumes, pelo agigantamento da corrupção, pela perseguição do ganho fácil e até mesmo pela desfaçatez dos que insinuam-se heróis da Pátria (como autoridade, em cumprimento de dever de ofício, se auto-proclamando esperança nacional em primeira página de jornal), a ausência da austeridade nos homens públicos, políticos ou não, nos faz tanta falta quanto nos faz corar de vergonha…

Mas, Prisco e Zezéu, mais que por austeridade, também coincidiam na devoção à nossa terra, na crença de que, ainda que mais extenso, o caminho da decência  era imperiosamente a trilha por onde os ideais que cultivavam e defendiam – cada qual ao seu modo e de acordo com a sua compreensão das questões essenciais do Brasil e do nosso povo – deviam ser conduzidos em busca de sua afirmação. Incansáveis, civicamente corajosos, profundamente ciosos da responsabilidade com as nossas causas maiores, zelosos com o proceder e com as suas respectivas histórias pessoais, dotados de raro espírito público, saem da nossa companhia para atender a divina convocação, deixando, atrás de si, um rastro luminoso de atuação benfazeja pelas contribuições de seus fazimentos em favor de nossa gente e sobretudo pelo legado grandiloquente de se haverem exercido como políticos de escol, induvidosamente paradigmáticos, exemplos inquestionáveis para a pedagogia que precisa ser estendida e alentada de como devem se pautar os que fazem vida pública.

A vida me permitiu ser amigo dos dois. De Zezéu Ribeiro, por menos tempo, embora o suficiente para conhecer-lhe as virtudes do ser humano correto e afetuoso, em aproximação muito aumentada quando trabalhamos com Geraldo Simões, juntamente ao reitor Naomar Almeida, em favor da conquista da Universidade Federal do Sul da Bahia. Prisco Viana, desde a Ilhéus dos anos 50 (antes que viesse assessorar a primeira campanha de Waldir Pires, a Governador, em 1962, passasse por A TARDE, do tempo em que assessorou o Ministro Oliveira Brito, no MME, de sua passagem pelo Correio da Manhã e pelo Jornal do Brasil, até quando voltou, pelas mãos do Governador Luiz Viana Filho, como primeiro Secretário de Comunicação, mais a passagem pelo cargo de Ministro da Habitação e candidato, em 2002, ao governo da Bahia), me honrou com uma amizade invariavelmente marcada pela estima e pela confiança.

Quem não se tocou ou não continua a se arrepiar com o refrão “Zezéu, vou votar em você…” com o qual começou a demolição da inexpugnável fortaleza carlista que ora teima em ressuscitar? Quem não se lembra do guerreiro, deputado Zezéu, ou de sua candidatura ao governo do Estado, antecedente da construção das vitórias oposicionistas de 2006, 2011 e 2014 ? Quem não sabe que Zezéu, como Prisco, foi um político que existiu para que, como um punhado de outros recolhidos da vida pública, mas de passado honrado, se impeça os “generalizadores” de colocar todo e qualquer portador de mandato ou dirigente público na vala comum dos ladrões, useiros em brandir, com o seu cinismo, hipocrisia e  maledicência que “todo político é ladrão”?…

Prisco Viana teve uma passagem reluzente na atuação como deputado, tanto nas articulações, como na produção legislativa. Alguns momentos são bastantes para realçar-lhe o exercício da atividade parlamentar: o seu parecer defendendo a intangibilidade dos direitos sociais dos servidores públicos (que fez arrostar a ira dos poderosos da ocasião e rendeu-lhe perseguição feroz em seus redutos eleitorais); a sua candidatura à presidência da Câmara Federal  que o seu passado de integrante de partidos de sustentação do ancien regime não inibiu as forças de esquerda e da oposição a apoiá-lo em razão de sua retidão moral e coerência e, por derradeiro, o momento insuperável de sua despedida da vida parlamentar (três horas de apartes de parlamentares de todos os partidos inclusive, do atual Ministro Jaques Wagner, com quem construiu sólida amizade). Como representante de suas bases eleitorais sertanejas, comporta lembrar, por inédita, a façanha de haver levado, num só dia, a Guanambi, nada menos que oito Ministros de Estado, a revelar o alto prestígio de que gozava e alta qualidade de sua devoção aos seus representados para os quais deixou um rico legado de muitas obras.

Os baianos, orgulhosos desses seus ilustres filhos, podem entronizá-los no panteão de sua  lembrança como exemplos vivos de dignidade, honra e devoção à nossa terra.

Prisco Viana e Zezéu Ribeiro existiram para dar razão aos que entendem que “a política é arte de servir”, sem servir-se !

 

CARLOS EDUARDO SODRÉ é advogado e Chefe de Gabinete da SEAP.                     carlossodre2014@gmail.com

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